A final do Australian Open não terminou quando a bola parou de quicar.

Ela continuou no corpo, no discurso e na forma como cada atleta lidou com a derrota.

E foi exatamente aí que algo chamou profundamente a atenção.

Quando a derrota vira peso interno

A postura de Aryna Sabalenka após perder a final feminina foi impossível de ignorar.

Não pela derrota em si — perder faz parte do desporto de alto rendimento — mas pela direção emocional que essa perda tomou.

Havia frustração.

Havia raiva.

Havia autocobrança extrema.

Mas o mais marcante é que todas essas emoções estavam direcionadas para ela mesma.

Era como se o erro não fosse apenas um erro técnico, mas uma falha pessoal.

E o peso disso era visível. Quase palpável.

Como espectadora, deu para sentir.

O desconforto, a dureza, o “eu devia ter feito melhor” ecoando alto demais.

E aqui surge um ponto sensível — e necessário:

👉 essa postura é prejudicial para quem a carrega.

Não porque a atleta não deva se cobrar, mas porque autocobrança não precisa vir acompanhada de autodestruição emocional.

Infelizmente, esse padrão é muito presente entre mulheres.

A curiosidade inevitável: e no masculino, como seria?

Depois de assistir àquele momento tão intenso, a curiosidade foi imediata:

como seria o discurso do segundo lugar masculino na final do dia seguinte?

E, sinceramente, não houve surpresa.

Quem acompanhou Novak Djokovic e Carlos Alcaraz no último ano já percebeu:

eles vivem o ténis de forma diferente. Mais leve.

No discurso após a derrota, Djokovic foi o retrato da maturidade emocional:

Reconheceu o mérito do adversário Assumiu que não foi o seu melhor dia Não se atacou Não dramatizou Não transformou o resultado em identidade

Havia respeito, análise e aceitação.

Não era frieza.

Era regulação emocional.

Dois níveis de autocobrança — e duas direções opostas

A diferença entre Sabalenka e Djokovic não está na vontade de vencer.

Ambos odeiam perder.

A diferença está no lugar para onde a autocobrança é enviada.

Sabalenka transforma a frustração num ataque interno imediato Djokovic transforma a frustração em leitura, ajuste e continuidade

Um confronto direto com o próprio valor versus uma avaliação do contexto.

Nenhum dos dois é “errado”.

Mas um deles custa mais caro emocionalmente.

A reflexão necessária: autocobrança feminina

Esse contraste escancara algo maior do que o ténis.

👉 Mulheres, em média, tendem a internalizar mais a falha.

👉 Cobram-se com mais dureza.

👉 Confundem desempenho com valor pessoal com mais frequência.

Isso não significa que homens não se autocobrem — eles se cobram, e muito.

Mas, na maioria das vezes, essa cobrança não vem acompanhada da mesma violência interna.

A mulher erra e pensa: “eu falhei”.

O homem erra e pensa: “isso não funcionou”.

A diferença é sutil.

E gigantesca ao mesmo tempo.

Para fechar

A derrota de Sabalenka doeu porque foi humana.

O discurso de Djokovic ensinou porque foi maduro.

O Australian Open mostrou que vencer começa muito antes do troféu — começa na forma como lidamos com o fracasso.

Talento leva ao topo.

Mas é a relação consigo mesmo que define quem permanece inteiro no caminho.

E talvez essa seja a conversa que mais precisamos continuar a ter.

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